26 QUILÔMETROS, EM SEIS METROS,  A CADA DIA: AS ANDANÇAS DE GILBERTO 

“Como assim, 26 quilômetros, em seis metros, a cada dia”??? Já explico.

Fotografia em preto e branco com foco em um homem segurando um pedaço de madeira com vários fios presos que se estendem em direção ao fotógrafo. Ele usa regata, calção listrado e boné. Seus braços estão dobrados na altura do peito, e movimenta-se em direção ao lado direito da imagem. Aos fundos forma-se uma parede de fios na horizontal.

Para quem nunca viu, vale logo comentar que a etapa da urdição, na feitura de uma rede de dormir, é visualmente atraente e bela, porque expõe uma fileira de fios, como as pautas de um caderno, largamente expostos, às vezes com cores vibrantes, em outras com tonalidades neutras. O desenrolar de vários fios, presos de ponta a ponta da urdideira, é mesmo muito bonito de se ver. E de se fotografar! Bonito, porém, demasiadamente exaustivo, quando feito à mão. E, hoje em dia, essa etapa, em Jaguaruana, é quase sempre feita à máquina, dificilmente encontrando-se artesãos que a façam nos modos antigos. 

 

No entanto, assim como Sérgio Vieira fotografou uma artesã fazendo a urdição dos fios, nos idos anos de 1982, Cayo, 40 anos depois do pai, já nessa segunda década do século XXI e a despeito do recurso das máquinas, encontrou Gilberto. Sua caminhada foi registrada, no dia em que o artesão completava 54 anos, urdindo os fios à mão – e a pé. Por que a pé? Porque a urdição consiste em prender os fios nas pontas opostas da urdideira, estando elas a uma distância de seis metros, em um incessante movimento de ir e vir. Contou-nos o artesão que, logo ao raiar do sol, começa sua andança, seguindo por pelo menos seis horas diárias de trabalho. Cronometrando-se essa andança, constatamos que em 10 segundos ele vai e volta, ou seja, anda doze metros; multiplicando-se os minutos e as seis horas diárias, chega-se a essa impressionante marca de cerca de 26 quilômetros andados por dia, a cada dia, durante semanas e semanas de trabalho, ao longo de meses e anos, literalmente a fio!  

Fotografia em preto e branco de um homem sentado que posa para a foto com semblante calmo e os braços repousando sobre as coxas. Seus dedos das mãos encostam um no outro formando um pequeno círculo. Ele usa boné, regata com os dizerem “Hief”, uma corrente aparente no pescoço, e calção listrado.  Ao fundo da imagem vários rolos de fio dispostos sobre o chão.

Entre o encanto pela resistência de seu corpo e o espanto pelas condições de trabalho mantidas ainda hoje, perguntamo-nos e o indagamos: se a urdição pode ser feita à máquina, por que Gilberto, então, a faz artesanalmente? Dizendo-se com pouco estudos, ele imagina não saber manusear a máquina, pois é necessário usar o que ele chamou de computador; de fato, uma simples máquina de calcular conectada ao equipamento; tarefa essa que, há de se respeitar, a ele representa um desafio. 

Acentuando as razões para manter-se aí e assim, ele nos explicou algo que a princípio, por nossas ignorâncias, não consideramos: poderia ser pior, se estivesse na roça. Não é difícil, pois, supor a dureza do enfrentamento dessa atividade no sertão nordestino e, mesmo estando ele nessa que nos pareceu uma árdua caminhada, a situação relativiza-se quando pudemos ouvi-lo. Sua andança é, então, garantia de trabalho e de recursos para sua sobrevivência. Nesse encontro, também nós tivemos que nos deslocar, caminhar e avançar em nossas compreensões e sensibilidades, para alcançar as razões de Gilberto. 

 

Pensamos nele, então, como sobrevivente do clima e das condições de um lugar que, sem cerimônia, impõe ao seu povo resistência, coragem e força, mas talvez ele seja também representante de um tempo que, em certo sentido, desejamos em extinção, pois, na medida em que haja avanço na escolarização de uma comunidade, isso pode permitir, como vimos e ouvimos em outros relatos, melhorias nos modos de viver e de trabalhar. A educação formal é mesmo poderosa, pode ampliar universos e fortalecer conquistas, mesmo que, sozinha, não dê conta de alterar relações no mundo do trabalho, dadas as garras dos fatores econômicos e políticos. Mas, mesmo assim, ela é valiosa, poderosa e indispensável. Foi prova significativa conhecermos o Joel, filho de Zenaide, artesã de varandas, que já concluiu o mestrado, já publicou livro de fotografia e hoje é professor universitário.  

 

O enredo que aqui não deixamos, pois, de denunciar, faz-nos supor, ainda, nos limites das micro decisões, que talvez fosse possível ao fabricante com quem trabalha Gilberto incentivá-lo a aprender o manuseio da máquina, garantindo-lhe seu sustento, mas permitindo, caso o artesão queira, que sua andança parada em um tempo distante extrapole os limites estreitos daquele espaço e alcance os dias de hoje, com suas atuais possibilidades, mesmo sem que ele tenha a escolarização, que lhe é devida por nós.  

Fotografia em preto e branco mostrando, em primeiro plano a direita, pinos de madeira com fios envoltos e seguindo para a parte esquerda da imagem. No lado esquerdo e desfocado, silhueta do braço de um homem, veias aparentes, palmas das mãos voltadas para cima, e seguindo uma das linhas formadas por esses fios. Ele usa camiseta e calção listrado.
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