REDES por 
Ed Viggiani curador

O projeto Redes, desenvolvido por Cayo Vieira e vencedor do XVI Prêmio Marc Ferrez, pela fundação Nacional de Artes, começou a ser realizado antes de seu nascimento. No início da década de 1980, o fotógrafo Sergio Vieira, pai do Cayo, documentou o processo artesanal de fabricação da rede de dormir na cidade de Jaguaruana, interior do Ceará. A generosidade sempre foi uma das características principais da família Vieira, as fotografias do Sergio expressam esse olhar, a rede de dormir foi incorporada à sua vida, assim como o amor pela arte. A surpresa, a inesperada leveza e o grafismo sertanejo são os elementos visíveis das relações estabelecidas do Sergio com o trabalho e a cidade. Cayo retoma a trajetória do pai, resgata imagens antigas e segue para Jaguaruana. Fotografar é um aprendizado, é a busca do conhecimento tanto do mundo exterior, como das questões íntimas. O projeto de Cayo Vieira cria um grande encontro de relevância histórica, artística e etnográfica, provocado pela memória afetiva do autor.

foto: Ed Viggiani

REDES por
Inês Mamede, pesquisadora  

Cerca de 40 anos e de 3.500km separam os tempos e os espaços dos fotógrafos Sérgio Vieira e seu único filho, Cayo Vieira, no projeto REDES, saindo eles de Curitiba, no Paraná, indo a Jaguaruana, no Ceará, passando pela capital, Fortaleza; o pai fez o percurso no início da década de 1980 e o filho o faz na década de 2020, mais precisamente em 2022. Mas, se esses tempos e espaços parecem estar distantes, eles evidenciam-se, no campo simbólico, afetivo e produtivo, intimamente próximos, na verdade, mais do que isso, estão mesmo entrelaçados, enredados.

 

Sérgio Vieira, com seus vinte e poucos anos, saiu do sul do país para o nordeste e motivado pelo universo atraente e encantador das redes de dormir, produto marcadamente nordestino com suas cores vibrantes e seu aconchego de todas as horas, partiu rumo a uma das mais importantes cidades brasileiras produtoras de redes, à época artesanais, Jaguaruana, tendo lá feito belíssimos registros fotográficos. Aí, podemos dizer, teve início o atual projeto, pois que ele perdura nas memórias, instiga os afetos e se desafia na produção também de seu filho, Cayo, que cresceu ouvindo as histórias sobre as redes, o lugar longínquo, os artesãos e demais pessoas lá encontradas por seu pai e que agora refaz esse percurso, imprimindo, claro, seu próprio olhar.

Nas imagens de Sérgio, feitas na década de 1980, quais seus traços mais marcantes? O que elas revelam estética e socialmente? Para além de enquadramentos, ângulos e cores, que tempo, que práticas artesanais, que formas de vida e de trabalho elas nos mostram? Como eram vistas e produzidas as redes? Que rostos e histórias poderemos vislumbrar nos retratos produzidos pelo fotógrafo?