A TRADIÇÃO DAS VARANDAS MANUAIS E A INOVAÇÃO COM O CROCHÊ DA NÊGA  

 

São elas, as varandas, que causam, junto à tecelagem, grande impacto visual ao admirarmos uma rede. Podem não ter “função prática” nenhuma, mas as varandas são, certamente, sua face estética mais deslumbrante; elevam a beleza e, obviamente, o valor. Esse efeito é causado, principalmente, quando elas evidenciam a presença de mãos artesãs, que, sem dúvida, dão toques de magia a essa fabricação.  

Fotografia em preto e branco em técnica imagem sobre imagem. Foco em uma mulher negra, cabelos encaracolados presos no alto da cabeça. Usa óculos de armação escura, blusa com listras em diagonal com detalhe em uma pequena argola na região do externo. Sua boca semiaberta mostra os dentes com uma pequena falha na parte inferior, e seus olhos estão direcionados para as mãos segurando uma agulha de crochê enrolando fios grossos. A imagem sobposta é um foco em duas mãos segurando agulha e linha de crochê, e algumas bolas já produzidas – chamadas de “varandas” dispostas em desfoque na parte inferior da imagem.

Se é fascinante apreciarmos uma varanda exposta em uma rede armada, também causa atração vê-la surgir manualmente, pouco a pouco, dos dedos rápidos de uma artesã, trabalhando ali em sua casa. Curioso dizer, mas varandas nascem em varandas. Surgem, geralmente, em espaços da casa mais abertos e amplos. Em sua feitura, podem ser usadas técnicas, materiais, cores e tamanhos diversos. As varandas manuais, como a elas se referem as artesãs, são de fato formosas e predominam entre as redes de Jaguaruana. A técnica é também conhecida por "macramé", pela qual os fios são agrupados com nós, formando padronagens geométricas e terminando abaixo em franjas. Já as redes "de sol a sol", feitas com um tipo de tecido mais macio, ganham, em geral, bonitas varandas de crochê. Tivemos, em nossa caminhada pelos bairros e localidades de Jaguaruana, a alegria de ver o nascimento de varandas manuais. 

Fotografia em preto e branco com foco em um par de mãos segurando várias bolas – “varandas” – feitas de crochê e com feches de fios pendurados em cada uma delas.  Em desfoque uma mulher fotografada da linha entre a boca e o tórax utilizando uma camiseta manga curta.

E há redes, tadinhas, que não têm varandas, talvez porque fiquem mais práticas ao uso diário, quiçá porque o freguês não é tão exigente, decerto porque ele precisa comprar muitas delas ou, quem sabe, porque o dinheiro está curto mesmo. Mas, é fácil concordar que as varandas imprimem mais charme, elegância e belezura às redes de dormir.  

 

Precisamos contar aqui, também, que, casual e felizmente, durante o planejamento de nossa viagem, conhecemos uma inovadora varanda de crochê, sobre a qual pudemos conversar, ainda em Fortaleza, com seus produtores. Então, já saímos da capital cearense com os destinos pensados e traçados: além de Jaguaruana, passaríamos por Aracati, que é caminho, onde iríamos ao encontro de Eliomar Nogueira, a Nêga, como é conhecida. Ela, com outras mulheres que compõem seu grupo, é a artesã que produz a varanda com bolinhas de crochê, que eu carinhosamente apelidei de "soizinhos", tanto por seu formato redondo quanto em homenagem ao Ceará Terra da Luz, Terra do Sol.  

Chamou-nos especial atenção o fato de que o fazer artesanal pode muito bem entrelaçar tradição e inovação, seguindo uma história que é viva, que tem altos e baixos, que passa por recuos, retomadas e novos rumos. Vimos que, no universo da fabricação das redes, a presença marcante do que é belo e tradicional pode coexistir com o belo e inovador. Vimos, assim, que novas gerações que decidem manter-se na produção de redes, veem e criam possibilidades outras, além do já reconhecido e valorizado modo tradicional de produzi-las. 

 

Mais ainda do que isso, porém, Nêga nos confirmou um aspecto fundamental relatado pelos produtores e que faz enorme diferença na valorização do que ela produz e nas suas condições de vida e de trabalho: a precificação das varandas é feita conjuntamente entre a artesã e o produtor, alcançando, assim, valores bem superiores ao que, em geral, é adotado naquelas localidades. Inevitavelmente, isso a coloca em um lugar de reconhecimento e nela gera sentimentos de orgulho, de autoconfiança e de mais segurança para planejar seus projetos financeiros, como ela citou o valioso exemplo da compra de sua casa.  

 

Ao conversarmos com Nêga, fomos realmente envolvidos em diferentes sentimentos, eixos e fios de uma meada complexa e fascinante, como é a história da fabricação de redes, incluindo nela passagens das trajetórias pessoais. Fugir de uma enchente com os pais e os irmãos sendo ainda criança é uma situação certamente assustadora, que se gravará nas paredes da memória. Em 1984, Nêga e a família tiveram que se refugiar em outra cidade, alojando-se em barracas de lona do exército. Naquele lugar improvisado não era possível dormir em redes, o que é fácil de se imaginar. Mas, talvez, não seja óbvio supor que isso seria exatamente do que uma criança tanto sentiria falta, naquele contexto precário: sua redinha. Ouvir esse impactante relato causou-nos espanto, pelo sofrimento vivido, mas também encanto, pelo apego ao aconchego da rede, sentimento esse maior do que muita gente, talvez, tenha a capacidade de alcançar. E Nêga teoriza: é um espaço de individualidade, cada um tem a sua. Sua rede e seu lençolzinho. E também nós, já tão apreciadores das redes, alargamos nossos afetos por esse artefato, ao ver como a rede é mesmo tão preciosa, representando, além de tudo que nela é visível e óbvio, um momento-lugar de subjetividades, em que cada um pode entregar-se a si, recolher-se, descansar e renovar suas energias para desafios e convivências vindouros.  

 

O encontro com Nêga e sua família, presentes o esposo e duas filhas, abriu as conversas de nosso projeto, de uma forma muito mais rica do que previam nossas expectativas. O papo, além do tom agradável, foi uma oportunidade de a vermos trabalhar, cheia de graça e altivez. Com clareza, serenidade e firmeza, após nos relatar trechos valiosos de sua trajetória, a artesã, reflexiva, arremata a costura narrativa: o crochê, para mim, é trabalho, é terapia, é paixão, é tudo. Após meus filhos, é o crochê. 

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