DA FABRICAÇÃO DA REDE DE DORMIR
 

Urdição-tecelagem-torcimento-gradeamento-mamucaba-varanda-empunhamento-carel 

 

Assim mesmo, emendadinhas, é que essas palavras nos dão a ideia da feitura de uma rede. Como um fio condutor, elas indicam etapas da fabricação e pouco a pouco revelam as cerca de quinze pessoas envolvidas na produção de cada rede de dormir. Isso mesmo que você leu: quinze pessoas para a feitura de cada rede, incluindo, aí, aquelas que cuidam do transporte, da limpeza e da embalagem. Cada etapa é realizada por uma ou duas pessoas, quase sempre uma. No caminho que percorremos, artesãs, operários e fabricantes nos ensinaram um pouco - para nós, muito! - sobre a sequência de toda a produção ou, mais detidamente, mostraram-nos cada uma de suas fases e facetas, apresentando-nos, com mãos incrivelmente ágeis, a parte da confecção que lhes cabe. E nosso olhar corria, quase sem êxito, tentando acompanhar e entender a rápida dança daqueles movimentos. 

Fotografia em preto e branco mostrando uma máquina de tear manual. Da esquerda para a direita uma mão com a palma virada para frente segura em um lado dos fios. Aos fundos a silhueta de uma roda com aros e madeira. Ao centro o pequeno equipamento com mecanismos de rolagem criada com ferro. À direita da imagem outra mão com punho semicerrado e os dedos virados para baixo segura as linhas entre os dedos indicador e médio.

A cadência das máquinas, com seus sons fortes e ritmados, o ambiente da fábrica entre ferramentas, graxa, poeira e operários atentos - pois as máquinas não são automáticas e dependem, sim, da presença constante e observadora de quem as manuseia -, encanta pelos largos fios, que formam, passo a passo, desenhos diversos em suas tecelagens. Cores, muitas cores saltam nessas paisagens, mesmo quando a preferência é por tons naturais.  

Fotografia em preto e branco tirada pela parte da frente de uma máquina de tecelagem. Longos espaços ocupados por fios de algodão, e partes de ferro aparentes. Aos fundos, e visto por uma fenda do equipamento, a silhueta de um homem branco usando regatas, aparecendo parte do tronco, braços, e seu rosto inclinado para o lado direito da imagem mostrando apenas a parte do nariz para baixo.

Feita a tecelagem na máquina, a rede seguirá o percurso artesanal. De casa em casa, vai ao lugar de morada e de ofício das artesãs e dos artesãos - fato esse que parece denotar certo bem estar, pela possibilidade de o trabalho ser realizado em casa, mas que impõe, quase que inevitavelmente, uma rotina feminina sem fim, já muito conhecida e denunciada, na qual acumulam-se funções, nem sempre valorizadas.  

 

A rede, nesses cenários, ganhará novos contornos, entre torcidas, nós e puxões, aproximando-se, a cada lar-oficina, da rede que conhecemos e desfrutamos em nossas casas, mas que talvez nem saibamos nela ver a presença de tantas e sábias mãos, de pessoas, famílias e gerações dedicadas a essa história. 

Fotografia em preto e branco com foco em um par de mãos jovens trançando fios formando uma rede. Da esquerda para a direita o topo dos fios prende-se em um pedaço de madeira com pregos. A imagem se apresenta mais escura na frente com claridade do sol ao fundo.

Agora, então, não tem mais como! Não tem mais como olhar para uma rede, essas belezuras de Jaguaruana, sem pensar no passeio que ela faz pela cidade, tecendo-se pelos bairros, pelas ruas de terra, pelas estradas distantes, crescendo de um jeito múltiplo, pois acrescida pouco a pouco e de mão em mão, em uma ciranda de muitos, até chegar aqui. Ou aí. Olhar a tecelagem, a varanda, o punho é pensar que em algum momento a rede foi gestada por um operário, em uma máquina ruidosa, branquinha de poeira, entre fios a girarem e a percorrerem-se; que esteve empilhada na varanda ou na sala de uma casa feita oficina; que por ali deitou um cachorro manhoso ou um gato matreiro; e, certamente, que passou pela mão ligeira e calejada de uma artesã ou de um artesão; que – honrada – dependeu da experiência de uma anciã; que atravessou os sonhos de uma jovem distraída e que contou, talvez - o que não deveria - com a mão pequenina de uma criança; tramando-a, todos eles, nesse bem precioso da cultura de um lugar, de uma cidade que fez e faz história na fabricação de preciosas e inigualáveis redes de dormir. 

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